Eu sei que o blog está parado e devo textos sobre a leitura do livro citado no último post, mas ... simplemente não fluiu. Então vou dar um parecer, que acredito mais urgente, sobre um assunto e pessoa, que tem ganhado algum espaço na mídia brasileira recentemente. Ontem esteve no programa De Frente Com Gabi Sara Winter, representante do FEMEN no Brasil. (Para saber mais sobre o FEMEM clique aqui e aqui).
Decidi expor estas observações levando muitas coisas em consideração como a pouca idade da entrevistada, meu pouco conhecimento sobre o grupo, a adesão relativamente recente da própria Sara ao movimento e as experiências muitas densas pelas quais ela passou enquanto militante para uma pessoa pouco experiente como ela (violência policial e se inserir em um campo de militância em uma cultura diferente da sua de origem). Esse último item acho que deve ser observado com muita atenção.
Eu gostaria de destacar alguns pontos que me incomodaram, enquanto mulher e feminista, querendo ou não, representada por esta mulher. Mas deixo antes claro que o meu discurso não é de repúdio ao FEMEM e sua ação, mas parte da necessidade de reflexão sobre quem nos representa. Por isso este texto é principalmente direcionado às feministas e/ou feministas militantes. Pois bem,companheiras, acá estamos nós sendo apresentadas ao 'Brasil' pela srta Sara Winter.
Acho que todxs nós, mesmo as/os que descobriram o feminismo por si mesmx sabem da resistência que encontramos quando a nossa atitude, pensamento,comportamento ou argumento confronta a sociedade machista. As pessoas tem uma antipatia imediata pelo feminismo, seja pelo raso conhecimento que possuem sobre o assunto, seja pelo desafio de mudança moral que lhes é prosposto. Logo quanto mais estudo e clareza do que é o feminismo, o que queremos dele, o que nos é essencial mais fácil seria lidar com esse possível confronto.
Imaginem uma garota de recém-completados 18 anos, que tem menos de 2 anos de contato com o feminismo e ativismo feminista de frente com Gabi, Pânico, Agora é tarde e toda a sociedade brasileira sexista. Me desculpem, mas é quase natural que essa combinação resulte em uma representação que nós não queremos ter. Talvez a própria Sara nao tenha noção do que é o que realmente está enfrentando. Nós bem sabemos a quantidade de expectativa de várias militantes e o tanto de nariz torto de gente tão acostumadaa entortar o nariz quando o assunto é feminismo.
Cá para nós, longe do nosso reduto virtual, espaço de ativismo ou grupo de amigxs feministxs eis o que a maioria das pessoas pensam sobre feminismo:
queimaram sutians+ vai enfiar o salto na garganta do marido+ querem conquistar o mundo, mas estão escolhendo a roupa adequada+ querem ser homens+ ????+ putas+ peludas+ não querem arrumar a casa+porcas+ interrogação²³³³³³³³+ chatas. A gente não tem que aceitar esses clichês e ficar eternamente se justificando, é óbvio. Mas quantxs de nós já não disseram "Não sou machista, nem feminista. Sou pela igualdade"? Feminismo não se ensina na escola, não passa no Jornal Nacional e nas obras populares de ficção as "feministas" acabam grávidas e descobrem que tudo que precisavam era se apaixonar (eu digo apaixonar e você lê piroca).
De repente temos o FEMEN e a Sara ganhando visibilidade e tendo uma chance enorme de explicar ao Brasil o que é feminismo, sexismo, exploração do corpo e da imagem da mulher, etc. A Marcha das Vadias teve uma visibilidade maior do que a ação da Marcha Mundial das Mulheres ou A Marcha das Margaridas, por exemplo. Mas nada se compara a Sara Winter, FEMEN e sua ação mais comentada: o topless. O que me incomoda é que eu não acho que a Sara Winter consegue se expressar de maneira satisfatória sobre o que o FEMEN acredita e o Femen não ME representa de uma maneira satisfatória também (mas aí já é problema meu) Mas principalmente o que me tira do sério é que estão as usando para reafirmar esse conceito de beleza cissexista eurocentrista e não vejo a Sara combater isso.Na verdade ela mesma durante a entrevista teve várias oportunidades de citar e questionar a fetichização do corpo feminino e não o fez. Falta explicar ao público leigo que o corpo feminino é fetichizado para ser explorado e é explorado por ser fetichizado, por exemplo. No discurso dela não há um questionamento sobre o 'mito da beleza'. Não a vejo nas entrevistas também combater a maneira que abordam as garotas do FEMEN e se refirirem a elas sempre citando a beleza e esse conceito de beleza sempre associado ao fato de serem louras, altas, magras em sua maioria. Pois os leigos que comentam sobre comigo dizem "Ok. Elas protestasm e são lindas, né?Que bom que são lindas, né?Tudo loura européia, né?" Para mim elas não têm culpa de se adequarem a este padrão de beleza e se conseguiram visibilidade por isso é porque a sociedade acha isso importante, não necessariamente as militantes do FEMEN acham. Mas "now is the time when enough is enough" e vamos parar de explorar essa característica do grupo ou bloquear de alguma maneira essa exploração. Não sei se o FEMEN tem tentado fazer isso no seu país de origem. Mas a atitude da sua representante brasileira sobre este ponto não está nada claro.
A Sara disse na entrevista que o topless é uma forma de dizer "eu comando a minha nudez, não você e seu mercado de exploração". Mas se ela não explica que o fetiche sobre o corpo feminino é um dos motivos que impulsiona esse mercado de exploração fica tudo muito confuso. Na verdade, eu acho que para assumir uma postura contrária a essa ideia e a relação constante que fazem entre o movimento e a beleza das gurias seria dizer algo como "Não. O movimento não é sobre garotas bonitas que protestam fazendo topless. Mas é sobre feministas contra o controle da nudez e corpos das mulheres pela sociedade patriarcal e mercado sexual". Não culpo o FEMEN pela mídia focar nas meninas consideradas mais bonitas e explorar a imagem delas. Mas se é feminismo e coletivo feminista, que se dedica a lutar especificamente contra exploração do corpo feminino e estão ocupando certo espaço na mídia, elas precisam se posicionar muito contrária e abertamente sobre este fato. Porque senão vai parecer que elas estão permitindo isso para ganhar visibilidade e isso ao meu ver é explorar o corpo de mulheres que correspondem a este padrão de beleza cissexista para conseguir espaço. Isso é extremamente perigoso ao movimento feminista, pois o trai.
Eu vejo a Sara como uma garota inexperiente, pela pouca idade e pouco tempo de militância, para enfrentar a mídia brasileira. Por vezes as respostas dela deixaram muito a desejar, acredito que em muito por essa ingenuidade e inexperiência. Ela chegou a deixar muitas respostas com reticências enormes, enquanto estasprecisavam de ponto final .
Há um tempo atrás eu diria que algum feminismo é melhor que feminismo nenhum. Mas hoje encaro essa postura como bastante irresponsável. No Congresso de Mulheres da UNE (Salvador, 2011) também se discutia a questão da nossa representação, nesse caso na figura da presidenta Dilma Roussef. De um lado alguns diziam "Não basta ser mulher" e a postura de outras era "Uma mulher na presidência é melhor que mulher nenhuma". Hoje eu tatuaria na testa "Não basta ser mulher. Tem que me representar com respeito e coerência". Não basta também ser feminista ou feminismo, precisa nos representar coerentemente. Acho que representação nenhuma é melhor do que uma representação que confunda mais ainda as pessoas sobre o que somos e queremos na sociedade.
A Sara foi expulsa de um show da Gretchen e até sofreu violência policial. Se eu estivesse lá daria suporte e a ajudaria a relaizar a ação, assim como se em alguma ocasião eu puder ajudar qualquer movimento ou militante feminista eu o faria. Gostaria muito de conhecer o FEMEN mais de perto, assim como sua representante brasileira. Mas muito me preocupa as entrevistas que ela tem dado e a imagem que se cria do feminismo. Enfim, me preocupa muito também uma feminista ao fim da entrevista relacionar o corpo da mulher a beleza e o do homem a força. Isso é fazer referência a um monte de coisa que o movimento feminista luta muito para desconstruir.
Sara, eu também quero mudar o mundo. Mas se eu tivesse esse espaço que você está tendo teria mais cuidado em transmitir uma imagem clara da maneira como eu quero mudar o mundo e porquê a mudança se faz necessária.
Também não faz sentido ser neo-feminista e desconsiderar suas raízes politicas, históricas enquanto ideologia e movimento social.Quem é neo, é neo de algo que já existiu e é nesse algo que está a essência de representação.
Go, go sis! Go, go Sara! Go, go FEMEN! Mas vamos sabendo quem somos e o que queremos nessa luta.
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segunda-feira, 16 de julho de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
A mulher que eles chamam vilã
Odeth Roitmann, Teresa Cristina, Carminha, Raquel, Flora, Jezebel, Eloquisa, Ivone, Clara, e até a estrangeira Paola Bracho, que duvido que faça mais sucesso em seu país de origem do que no pa-tro-pi. Todas elas contrastam com as mocinhas das tramas televisivas, nas novelas que são acompanhadas diariamente por brasileiros. As novelas, principalmente as globais, das quais muitos brasileiros se orgulham e que temos até como produto de importação para, principalmente, alguns países africanos e Portugal.
Recentemente a africana Paulina Chiziane chegou a afirmar que os moçambicanos teriam medo do Brasil pela imagem do negro serviçal que suas novelas passam (clique aqui). Eu também tenho medo das telenovelas brasileiras, pela imagem das mulheres e por elas terem a representação principal na dramaturgia de maneira dicotomizada. Pois as que chamam mais atenção e ao redor de quem as tramas são formadas são sempre a mocinha, que provavelmente terminará casada, e a vilã, que provavelmente terá um fim trágico ou reaparecerá ,quando todos pensam que ela está morta ou presa, em alguma ilha cercada por luxo (ou coisa similar a isso).
O que importa analisar é quem é esta mulher que recebe como paga pelos seus erros o fim trágico ou é tão ardilosa que mesmo sendo mal caráter consegue se dar bem no final. Quais são as características da maioria destas personagens, que são classificadas como vilãs? Quem é essa mulher que se chama vilã, em contrapartida às características da mocinha, de bom caráter.
Eu acho que, mesmo não partindo de um estudo estatístico, todos hão de convir que as vilãs das telenovelas, em sua maioria, são inteligentes, ricas, tem uma excelente autoestima, bonitas e na quase sempre tem um amante que lhes é subordinado. Veja o exemplo da atual novela do horário nobre da Rede Globo e você há de encontrar ao menos noventa por cento dos itens citados na construção da personagem 'Carminha'. É bom notar também que as vilãs gozam de uma liberdade sexual maior que todas as outras mulheres da trama, vide Teresa Cristina, e como ela não era guiada por escrúpulos moralistas para se envolver até com o 'Pereirinnha' (sujo e maltrapilho) em uma relação puramente sexual. Além disso havia a personagem 'Crô', que com sua subserviência, ajudava a construir para o telespectador a principal característica desta vilã, o empoderamento pessoal. Eu acho isso digno de ser observado porque eu não vejo as mocinhas globais serem descritas dessa mesma maneira. Na maioria das vezes elas têm uma fidelidade canina ao personagem com quem fazem par romântico e quando se envolvem com outro homem, é sempre no sentido de se apaixonar ou haver sido enganada. Então eu me pergunto, por quê eles castram as heroínas de suas novelas e empoderam suas vilãs? Se fazem isso conscientemente ou se apenas reproduzem uma tradição no mundo das artes em que a mulher é sempre o ser místico, diabo ou anjo divino, não sei. Mas para mim é claro, que apesar de muito se falar e repetir bordões das vilãs, a maioria das brasileiras se enquadram melhor no papel da mocinha ou na sua vida prática desejam ser ela. A mocinha que será recompensada no final com o amor ou casamento com o seu homem ideal. O problema é que na vida real, este homem ideal não existe e a novela não mostra qual é o papel da mocinha depois do casamento no final feliz, reproduzindo o sentido dos contos de fada. Em contrapartida, ela mostra qual será a paga da vilã, morta tragicamente/presa/ empobrecida ou como a mulher sagaz que consegue se recuperar e ter uma vida que vejamos bem, é bem mais confortável e interessante. Pois beber drinks luxuosos no Caribe, por exemplo, é bem mais interessante do que se ver casada com um personagem masculino, que provavelmente foi bem mais apagado que as mulheres no enredo da novela. Para mim está clara a associação de poder, bem-estar, ganho pessoal, subordinação masculina, liberdade sexual, das mulheres ao mal caratismo.
A vilã mal caráter é a mulher na trama, que possui alguma independência genuína. Então nos últimos capítulos ou ela pagará tragicamente por essa independência ou ela vai se dar bem. Neste último caso estamos delimitando claramente que a mulher de bom caráter se casa com um homem ideal e a mulher de mal caráter é fria e por isso consegue sucesso pessoal e uma vida confortável independente sozinha ou acompanhada do seu subordinado.
Recomendo a leitura de 'A mulher que eles chamavam Fatal' e no próximo post irei falar mais um pouco sobre este livro da Mireille Dottin-Orsini. Por enquanto acho que este trecho abaixo se encaixa muito bem na idéia do texto que acabo de escrever:
“Observando essas imagens da mulher, podemos fazer curiosas constatações: se uns continuam impávidos, perpetuando os louvores à Madona, celebrando a mulher (isto é, a mãe potencial) como naturalmente boa, altruísta, pronta para todos os sacrifícios, outros afirmam com a mesma convicção que a mulher (isto é, o objeto do desejo) é da mesma forma, naturalmente, destinada à falsidade e à crueldade,à mentira pronta e mãos manchadas de sangue...”
Mireille Dottin-Orsini, sobre a representação obsessiva e dicotomizada da mulher na arte 'fin-de-siècle'.
sábado, 21 de abril de 2012
Termino um livro, começo outro ... e eu? Eu só.
Após o impacto de ler um romance em que eu me sentia refletida no caráter de certa personagem durante todo o tempo de leitura, sou obrigada a procurar companhia pela fala poética de uma desconhecida. Ontem eu lia a ficção de uma francesa rica. Hoje eu leio poesia de uma brasileira, que também não é pobre.Talvez essa coisa de pobreza ou riqueza seja puro complexo meu, que sou pobre. Mas muitas vezes me sirvo disso como parâmetro para avaliar de que maneira o meu comportamento se distancia da forma de ser das outras pessoas.
A questão, que pode ser sexista, é que sempre quando conheço a obra literária de alguma mulher, que tem (ou teve) muito mais dinheiro que eu, uso isso como desculpa por elas conseguirem ser brilhantes e eu não.Não sei porque com relação aos homens nunca faço este tipo de reflexão. Talvez seja porque já estou acostumada a vê-los levar vantagem em quase tudo. Mas não vamos transformar este texto em uma discussão sobre sexismo.
Os textos aos quais me referia no parágrafo acima foram escritos por Simone De Beauvoir e Ana Cristina César. A personagem com quem me identifiquei é a Anne, do livro 'Les Mandarins'. A Anne também é retratada no livro como uma mulher de classe média alta, que vivia entre intelectuais franceses após a segunda guerra mundial. Mas ainda assim eu identificava o meu pensamento refletido na construção psicológica do seu caráter.
Eu li este romance da Simone, durante quase dois meses, pois o único tempo livre que tenho para ler é durante a minha viagem de metrô até o trabalho. Este hiato de tempo, onde estou solitária, cercada (e amassada) por gente é o momento em que na verdade me encontro mais só do que nunca. A viagem de metrô é como um intervalo precioso na convivência com as pessoas que conheço. (Mas isso só ocorre quando consigo me sentar, é óbvio) Enfim, não teria tempo melhor para se dedicar à leitura. Foi nesse hiato de tempo que construí minha relação, durante cinco semanas, com Anne, Paule, Henri, Nadine, Dubrehil, etc...
Agora o meu marido me disse "Leia Ana Cristina César" e me entregou essa compilação dos seus poemas. Eu não tive como dizer não. Até o momento não fazia ideia do que poderia ler. Estava abandonada pela Simone e só me restou cair nos braços da Ana Cristina. Era isso ou a solidão, pois não possuía ânimo próprio para ler outra coisa.
Engraçado como os personagens de um romance parecem fantasmas. Eles te acompanham durante um tempo e depois você fecha a capa do livro e simplesmente não estão mais lá.
Agora eu fui apresentada à obra desta pobre menina rica carioca. Longe de mim desmerecer o seu trabalho. Mas por ela estar mais próxima a minha realidade eu me sinto mais a vontade para criticá-la. É mais fácil ser compreensiva com a fictícia Anne ou com a própria Simone, que estão fora do que é tangível a mim. Pois quando encontro algum ponto de identificação com quem está longe, posso me sentir surpresa, pois não tinha sobre isso expectativa. Porém quanto a obra de uma quase igual (apesar de ser brasileira, ela não é minha contemporânea e pertence a outra classe social) me sinto livre para sentir despeito. Mesmo essa reflexão mesmo sendo louca e inútil, hão de convir comigo que é mais fácil criticar aquilo que é conhecido. A Ana Cristina é brasileira, eu sou brasileira (que nunca saiu do próprio país). O que eu posso falar sobre uma francesa?
As poesias da Ana Cristina são para mim um monólogo. Este compilado de seus poemas compõe uma peça teatral, onde ela é a única personagem. Desta maneira eu me sinto jogada para fora de sua obra. É como se ela dissesse o tempo todo "Me escutem, mas não falem comigo". Eu sinto isso com relação a quase todos os poetas que eu já li. Mas com ela esse sentimento veio de forma imediata. Sei também que esse "gelo" que sinto entre eu e as suas palavras são um pouco de desdém. Pois quase sempre tenho inveja de mulheres que conseguem escrever e publicar seus textos. Sexismo de novo? Talvez... Só sei que eu penso que ela é brasileira como eu, mulher como eu e consegue escrever de verdade, mas eu não. Há um certo desdém e inveja mesmo... eu sei. Então uso a desculpa que isso acontece porque ela é rica (o que não deixa de ser uma certa verdade).
Eu sempre estabeleço uma relação muito "real" com aquilo que eu leio. Então sentir-me tão atingida por estas autoras é culpa minha e só minha. Algumas vezes sinto vontade de transar com alguns autores e em outras horas sinto vontade de esbofeteá-los. (Ainda bem que o meu companheiro escreve e posso praticar isso com ele)
A verdade é que não vou deixar de ler as poesias da Ana Cristina por causa dessa impressão inicial.Vou deixar essa mulher fazer suas queixas a mim, enquanto me torno passiva espectadora. Quem sabe assim não me acostumo a apenas ler ou "ouvir"? Porém até me acostumar a essa falta de empatia estarei só neste hiato diário de tempo. Até que eu decida que a menina rica pode existir para além dos jardins do Bennet e pode me acompanhar por além da zona sul. Por enquanto somos apenas duas estranhas. E eu? Eu só.
"Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal
do nascimento a mais da palavra"
Ana Cristina César em Fagulha.
domingo, 8 de abril de 2012
Sobre a 'Sessão da Tarde' e a minha sexualidade
Kassandra Petterson, Elvira - A rainha das trevas- , já povoou o imaginário sexual de muitas crianças às 3 horas de tardes inocentes na frente da televisão. O filme homônimo sobre esse mundo dos bruxos era muito mais audacioso que Harry Potter e essas películas recentes que falam sobre bruxaria, vampiros, etc. Elvira transpirava sensualidade e lembrem-se esse filme era assistido por crianças. A figura da Elvira, por si só, é um forte apelo sexual. Mas a famosa cena onde ela gira os peitos (vide fim do post) era o auge para a garotada que estava assistindo. Lá estava Kassandra contribuindo para a descoberta (alguns dirão precoce) da nossa sexualidade.
Eu também estava lá assistindo e apesar de odiar filmes de terror adorava "Elvira, a rainha das trevas". Na época eu não sabia bem o porquê. Pois apesar de muito precocemente as minhas brincadeiras com as barbies da minha prima ser sempre sobre sexo, eu conhecia apenas modelos heteros de relacionamento amoroso e relações sexuais. Quando se comentava sobre homossexualismo na minha família era alguma piadinha, onde se concluía que aquilo era uma anomalia ridícula. Eu já me sentia diferente demais para querer pensar sobre mais essa característica excludente sendo parte de mim. A sorte é que sempre me interessei por meninos também. Então eu preferi focar neles, até que eu ignorei completamente o 'interesse' por mulheres.
Mas voltando a "Sessão da tarde", a Elvira e aqueles peitos enormes e lindos dela me causavam uma estranheza e ao mesmo tempo eu não queria parar de olhar. Eu realmente ficava fascinada com aquilo e queria muito poder tocá-los. Mas isso durava durante o filme, quando acabava eu sentia um tanto de nojo. Na próxima vez que o filme passasse na tv eu esqueceria do nojo e estaria lá para assistir. Eu tinha por volta de 7 a 10 anos de idade nessa época e já me apaixonava platonicamente por alguns meninos.
Durante muito tempo o corpo feminino chamou muito a minha atenção, de uma maneira que eu chegava a temer que aquilo pudesse ser excitação. Então qualquer ocasião em que eu estivesse em frente com uma imagem erótica feminina eu rapidamente desviava o olhar, fechava a revista, saia do lugar e ás vezes ficava aborrecida. Aquelas mulheres estavam me provocando de alguma maneira e eu não gostava daquilo. Alguém pode me dizer " Ah Bonnie, isso é normal. Você só estava as achando bonitas." Eu usei essa desculpa para mim mesma muitas vezes. Mas hoje eu sei muito claramente que o que eu sentia era tesão, excitação. " Mas era porque você estava olhando um imagem erótica e ficava se imaginando daquele jeito." Sim, também já usei essa desculpa. Mas não era isso. Hoje eu tenho maturidade (e coragem) de admitir que eu me sentia atraída por aquelas mulheres e que aquelas imagens me chamavam atenção por ser mulheres que se exponham ali.
É justamente por conta dessa maturidade e por deixar de lado muitos preconceitos, que até bem recentemente me acompanhavam, que hoje eu posso olhar para trás, identificar o motivo de eu não conseguir enxergar certas coisas a meu próprio respeito, sobre minha própria sexualidade.
Quando eu me desvencilhei dos conceitos cristãos de acordo os quais fui educada- e eu cito a religião puramente por minha experiência pessoal com ela ser um divisor de águas na minha vida- me senti mais livre para ir questionando o motivo de persistir o medo de que eu fosse homossexual ou bissexual. Porque maioria das pessoas que eu conhecia eram preconceituosos, homossexuais ou héteros que não tinham grilo ou medo de contato físico com pessoas do mesmo sexo. As minhas amigas se tocavam, beijavam, abraçavam e eu era carinhosa mas sempre com receio e ouvia diversas vezes que eu nem olhava nos olhos delas. Mas faz pouco tempo que eu entendi que na verdade eu tinha medo desse contato fazer com que me sentisse atraída por elas. Eu sempre achava que uma boca de uma amiga muito perto da minha poderia acabar em um beijo na boca, e eu não via as outras meninas preocupadas com isso. Então eu optei por me afirmar como hetero, mesmo quando já me achava livre de preconceitos com relação a sexualidade alheia.
Até o ano passado eu tinha várias informações teóricas sobre diversidade sexual e acreditava piamente nelas. Mas na verdade eu não queria pensar que eu era um elemento dessa diversidade, que fazia parte de uma "minoria". Não sei bem quando, mas um dia desses atrás eu comecei a questionar muito essa minha defensiva que era mascarada por " Eu sou a hétero legal, que apóia a causa gay". Não que essas pessoas "héteros que militam pelos direitos dos gays" não existam. Mas no meu caso muitas vezes foi uma máscara.
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."
Fiquem com Elvira e a famosa " dança dos peitos"
Eu também estava lá assistindo e apesar de odiar filmes de terror adorava "Elvira, a rainha das trevas". Na época eu não sabia bem o porquê. Pois apesar de muito precocemente as minhas brincadeiras com as barbies da minha prima ser sempre sobre sexo, eu conhecia apenas modelos heteros de relacionamento amoroso e relações sexuais. Quando se comentava sobre homossexualismo na minha família era alguma piadinha, onde se concluía que aquilo era uma anomalia ridícula. Eu já me sentia diferente demais para querer pensar sobre mais essa característica excludente sendo parte de mim. A sorte é que sempre me interessei por meninos também. Então eu preferi focar neles, até que eu ignorei completamente o 'interesse' por mulheres.
Mas voltando a "Sessão da tarde", a Elvira e aqueles peitos enormes e lindos dela me causavam uma estranheza e ao mesmo tempo eu não queria parar de olhar. Eu realmente ficava fascinada com aquilo e queria muito poder tocá-los. Mas isso durava durante o filme, quando acabava eu sentia um tanto de nojo. Na próxima vez que o filme passasse na tv eu esqueceria do nojo e estaria lá para assistir. Eu tinha por volta de 7 a 10 anos de idade nessa época e já me apaixonava platonicamente por alguns meninos.
Durante muito tempo o corpo feminino chamou muito a minha atenção, de uma maneira que eu chegava a temer que aquilo pudesse ser excitação. Então qualquer ocasião em que eu estivesse em frente com uma imagem erótica feminina eu rapidamente desviava o olhar, fechava a revista, saia do lugar e ás vezes ficava aborrecida. Aquelas mulheres estavam me provocando de alguma maneira e eu não gostava daquilo. Alguém pode me dizer " Ah Bonnie, isso é normal. Você só estava as achando bonitas." Eu usei essa desculpa para mim mesma muitas vezes. Mas hoje eu sei muito claramente que o que eu sentia era tesão, excitação. " Mas era porque você estava olhando um imagem erótica e ficava se imaginando daquele jeito." Sim, também já usei essa desculpa. Mas não era isso. Hoje eu tenho maturidade (e coragem) de admitir que eu me sentia atraída por aquelas mulheres e que aquelas imagens me chamavam atenção por ser mulheres que se exponham ali.
É justamente por conta dessa maturidade e por deixar de lado muitos preconceitos, que até bem recentemente me acompanhavam, que hoje eu posso olhar para trás, identificar o motivo de eu não conseguir enxergar certas coisas a meu próprio respeito, sobre minha própria sexualidade.
Quando eu me desvencilhei dos conceitos cristãos de acordo os quais fui educada- e eu cito a religião puramente por minha experiência pessoal com ela ser um divisor de águas na minha vida- me senti mais livre para ir questionando o motivo de persistir o medo de que eu fosse homossexual ou bissexual. Porque maioria das pessoas que eu conhecia eram preconceituosos, homossexuais ou héteros que não tinham grilo ou medo de contato físico com pessoas do mesmo sexo. As minhas amigas se tocavam, beijavam, abraçavam e eu era carinhosa mas sempre com receio e ouvia diversas vezes que eu nem olhava nos olhos delas. Mas faz pouco tempo que eu entendi que na verdade eu tinha medo desse contato fazer com que me sentisse atraída por elas. Eu sempre achava que uma boca de uma amiga muito perto da minha poderia acabar em um beijo na boca, e eu não via as outras meninas preocupadas com isso. Então eu optei por me afirmar como hetero, mesmo quando já me achava livre de preconceitos com relação a sexualidade alheia.
Até o ano passado eu tinha várias informações teóricas sobre diversidade sexual e acreditava piamente nelas. Mas na verdade eu não queria pensar que eu era um elemento dessa diversidade, que fazia parte de uma "minoria". Não sei bem quando, mas um dia desses atrás eu comecei a questionar muito essa minha defensiva que era mascarada por " Eu sou a hétero legal, que apóia a causa gay". Não que essas pessoas "héteros que militam pelos direitos dos gays" não existam. Mas no meu caso muitas vezes foi uma máscara.
Hoje eu penso que eu- como qualquer um- posso me apaixonar por qualquer pessoa ou me sentir atraída sexualmente por qualquer pessoa (ou as duas coisas ao mesmo tempo). Pois pessoas são pessoas e sempre podem ser interessantes, engraçadas, sensuais, inteligentes, etc. Há um universo de possibilidades à minha frente e é o que eu quero aproveitar nesse momento. Mas tudo pode mudar, tudo sempre muda e eu gosto disso desde que me entendo por gente. Essa é a certeza que realmente interessa permanecer.
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."
Fiquem com Elvira e a famosa " dança dos peitos"
quarta-feira, 14 de março de 2012
Inquietações
Hoje é quatorze de março de dois mil e doze, e estou deitada com "my man" na cama de casal. Eu deveria ter ligado para minha mãe assim que chegasse da faculdade. Eu cheguei às 10 horas e até agora não tive coragem de ligar e sinto pena dela e do meu pai por eu não ter ligado. Mas não consegui ligar. Eles querem que eu case e vão falar várias coisas que eu não concordo, enfim... Ao mesmo tempo eu sei que eles também se sentem magoados pelo meu distanciamento e aí fico com pena. É uma grande chatice esse meu dilema familiar. Já estou cansando de falar sobre ele e aposto que a maioria das pessoas já estão cansadas de ouvir.
Meu dia hoje poderia ser resumido a ansiedade persistente com relação ao meus pró-genitores e a uma parvoice cometida por mim hoje na estação do metrô. Eu estava comendo um sanduíche e simplesmente mastiguei um pedaço de papel. Por alguns segundos parei e tencionei tirar o papel da boca. Mas desisti por pura preguiça. Eu precisava era degustar todo aquele sanduíche e uma sublime passividade tomava posse de mim naquele momento. Ainda bem que se tratava apenas de um sanduíche. Pois mesmo se eu caísse na linha do metrô era capaz que não sentisse vontade de levantar-me do chão. Um torpor medonho tomou conta de mim e fui comendo o sanduíche com papel e tomando coca-cola para empurrar intestino a dentro. No fim achei o papel agradável para comer e me levantei para entrar no metrô. Quando virei meu rosto para a esquerda olhando se tinha deixado alguma coisa no banco uma senhora me encarava com temor e ela tinha um olhar de medo. Esse estranhamento dela com relação a minha pessoa me tirou desse estado de sensibilidade reduzida. Então eu fiquei olhando para ela, até que ela se levantou do banco. Imediatamente a minha vontade de brigar, comer e transar voltou. Acordei!
Fora o dilema com os meus pais, essa espécie de apatia que ás vezes me acomete em momentos (pequenos ou importantes) em que preciso reagir, eu fiz sexo hoje e foi bom.Só queria morder mais "my man" e bater nele na hora de trepar. Ele disse que tudo bem, mas tenho certeza que não sabe o que está falando. Deixo apenas pequenas mordidas pela corpo dele, por enquanto.
Desenhos de Roland Torpor ilustram esse post
Meu dia hoje poderia ser resumido a ansiedade persistente com relação ao meus pró-genitores e a uma parvoice cometida por mim hoje na estação do metrô. Eu estava comendo um sanduíche e simplesmente mastiguei um pedaço de papel. Por alguns segundos parei e tencionei tirar o papel da boca. Mas desisti por pura preguiça. Eu precisava era degustar todo aquele sanduíche e uma sublime passividade tomava posse de mim naquele momento. Ainda bem que se tratava apenas de um sanduíche. Pois mesmo se eu caísse na linha do metrô era capaz que não sentisse vontade de levantar-me do chão. Um torpor medonho tomou conta de mim e fui comendo o sanduíche com papel e tomando coca-cola para empurrar intestino a dentro. No fim achei o papel agradável para comer e me levantei para entrar no metrô. Quando virei meu rosto para a esquerda olhando se tinha deixado alguma coisa no banco uma senhora me encarava com temor e ela tinha um olhar de medo. Esse estranhamento dela com relação a minha pessoa me tirou desse estado de sensibilidade reduzida. Então eu fiquei olhando para ela, até que ela se levantou do banco. Imediatamente a minha vontade de brigar, comer e transar voltou. Acordei!
" - Pam, cadê a história, o desfecho? Nada que disse faz sentido.
- A história já está contada. Não tem desfecho, nem remate. É só isso."
Fora o dilema com os meus pais, essa espécie de apatia que ás vezes me acomete em momentos (pequenos ou importantes) em que preciso reagir, eu fiz sexo hoje e foi bom.Só queria morder mais "my man" e bater nele na hora de trepar. Ele disse que tudo bem, mas tenho certeza que não sabe o que está falando. Deixo apenas pequenas mordidas pela corpo dele, por enquanto.
"-Pam, esse post não tem nenhum sentido.
- Eu sei disso."
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Treinamento para cometer suicídio na praia
Você tira a roupa, entrega seus pertences a alguém de confiança, sai correndo em direção ao mar, nesse momento procura esquecer seu peso e se as suas coxas flácidas balançam ou não, nada disso importa. O vento batendo no rosto e a imensidão à sua frente te convida para um lugar onde nunca mais terá problemas, a saber, este lugar é a inconsciência eterna, a morte. Mas não é tristeza, muito menos cocaína (talvez sim), você apenas decidiu ir embora. Está no pleno exercício das suas faculdades mentais, extremamente lúcido, até mesmo possuído de frieza emocional e quer aproveitar o bom momento que está vivendo para morrer feliz. Porém quando chega a beira da praia já percebe que ainda não está pronto. Ainda tem medo da água e a temperatura gelada dela te incomoda também. Então você lembra de um filme brega romântico, onde a mocinha sofre congelada e o mocinho definha até a morte.O tempo que ficará ali sofrendo e agonizando já o intimida sem que tenha avançado ao menos 2 metros para dentro do mar. Fica ali parada olhando para o nada e pensando em como perder o medo de se entregar as águas. O principal, você entregou os seus pertences a alguém de confiança e isso sinaliza que ainda está preso ao que conhece por sua vida. Sorri e volta correndo para a areia, como criança.
Foi assim que eu descobri o que é necessário para em caso de urgência estar pronta para ir embora. Não apenas conseguir uma arma e atirar contra si mesmo, cortar o pulso, tomar remédios, se jogar na frente do metrô ou qualquer outra coisa que seja, eu quero uma morte bonita e a mais bonita para mim é morrer afogada em águas que me fazem bem e encantam.Mas eu ainda estou nesse vício de desejar me matar quando as coisas dão errado e acho esse sentimento ilegitímo e sinônimo de fraqueza. Coragem vai ser eu ir quando estiver muito bem. Esse é o momento mais inteligente para partir, pois a gente sempre corre o risco de tudo estragar e sempre tudo vira bosta na minha vida. Sendo assim, eu concluí que o melhor momento para me suicidar é quando eu estiver muito bem para não correr o risco de tudo dar errado de novo e eu sofrer novamente. O mal é que quando tudo está bem a gente se enche da maldita esperança e faz planos para o futuro. Só é necessário recordar que, como vários outros, estes planos poderão não dar certo e você vai perder a chance de eternizar um momento bonito da sua vida. A minha ídeia principal de suícidio é abandonar a carreira ainda no auge, no melhor momento, para que lembrem de mim como alguém especial e que vivia coisas bonitas, fazia coisas bonitas e era feliz. Me pergunto: por que sofrer? Pois é óbvio que cada vez que você prolonga mais a vida, mais você sofre.
Não me importo com o que as pessoas acham sobre suícidio. Eu só sei que esse é o meu desejo. Se for para morrer que seja "por minhas próprias mãos" e porque eu quis morrer. O suícidio, nada mais é, do que o direito total do homem sobre si mesmo.
Mas ontem eu percebi que a morte ainda me traz muita angústia e insegurança, talvez seja falta de cocaína mesmo. Quando eu for morrer vou comprar um pouco de pó, cheirar, beber bastante, entrar no metrô, descer em Botafogo e ir para o Leme. No final da tarde, com um pôr do sol maravilhoso, eu vou entrar no mar. Para que eu não me acovarde novamente, é preciso pensar sobre as seguintes coisas:
1- Não pensar muito sobre o fato de que eu vou morrer. Não teorizar sobre nada e tentar não lembrar que eu tenho mãe. Não pensar se é certo ou errado. Enfim tentar me abster de qualquer sentimentalismo de ultima hora...
2- God doens't exist... então o inferno também não
3- Lembrar que você apenas não quer mais correr o risco de sofrer
4- Estar drogado ou embriagado o suficiente para não se arrepender de última hora, decidir voltar atrás e acordar em um hospital com problemas respiratórios, gente chorando ao seu redor e um psiquiatra querendo conversar com você
5- Foda-se! É a minha vida e eu simplesmente não quero mais que ela seja ruim
6- O mar é um lugar lindo, grandioso
7 Quando estiver bem longe da areia pegar o algodão que está segurando e tapar o nariz e os ouvidos
8- Pode gritar e chorar, mas certifique-se que o local está deserto
9- Estar em local deserto
10- Tentar se divertir enquanto for avançando para a parte mais funda
11- Brincar de boiar, mergulhar e ir cada vez mais para o fundo
12- Não lutar para viver.Simplesmente se entregar...
13- Quando perceber que se arrependeu, lembrar que já está muito longe da praia e é tarde demais
14- Se certificar que vai conseguir morrer dessa maneira.
15- Nada necessariamente nesta mesma ordem
Mas ontem eu percebi que ainda posso viver alguns anos,conquistar algumas coisas, viajar e conhecer outras pessoas até o tal momento do suicídio. Ontem na praia eu procurava as pessoas quando tinha medo de me afogar. Até eu perder completamente este medo vou indo a praia e pesquisando o melhor modo de cumprir a minha vontade. Ainda tenho alguns bons anos para elaborar isso.
O momento estava propício, mas eu preciso ter mais medo de viver do que de me afogar. De repente eu me toquei que o mar vai ter que esperar mais uns bons anos pelo meu corpo. Pois percebi que sou forte e posso muito só também. Perdi o medo de estar junto e também da solidão nesse intenso carnaval.
Foi assim que eu descobri o que é necessário para em caso de urgência estar pronta para ir embora. Não apenas conseguir uma arma e atirar contra si mesmo, cortar o pulso, tomar remédios, se jogar na frente do metrô ou qualquer outra coisa que seja, eu quero uma morte bonita e a mais bonita para mim é morrer afogada em águas que me fazem bem e encantam.Mas eu ainda estou nesse vício de desejar me matar quando as coisas dão errado e acho esse sentimento ilegitímo e sinônimo de fraqueza. Coragem vai ser eu ir quando estiver muito bem. Esse é o momento mais inteligente para partir, pois a gente sempre corre o risco de tudo estragar e sempre tudo vira bosta na minha vida. Sendo assim, eu concluí que o melhor momento para me suicidar é quando eu estiver muito bem para não correr o risco de tudo dar errado de novo e eu sofrer novamente. O mal é que quando tudo está bem a gente se enche da maldita esperança e faz planos para o futuro. Só é necessário recordar que, como vários outros, estes planos poderão não dar certo e você vai perder a chance de eternizar um momento bonito da sua vida. A minha ídeia principal de suícidio é abandonar a carreira ainda no auge, no melhor momento, para que lembrem de mim como alguém especial e que vivia coisas bonitas, fazia coisas bonitas e era feliz. Me pergunto: por que sofrer? Pois é óbvio que cada vez que você prolonga mais a vida, mais você sofre.
Não me importo com o que as pessoas acham sobre suícidio. Eu só sei que esse é o meu desejo. Se for para morrer que seja "por minhas próprias mãos" e porque eu quis morrer. O suícidio, nada mais é, do que o direito total do homem sobre si mesmo.
Mas ontem eu percebi que a morte ainda me traz muita angústia e insegurança, talvez seja falta de cocaína mesmo. Quando eu for morrer vou comprar um pouco de pó, cheirar, beber bastante, entrar no metrô, descer em Botafogo e ir para o Leme. No final da tarde, com um pôr do sol maravilhoso, eu vou entrar no mar. Para que eu não me acovarde novamente, é preciso pensar sobre as seguintes coisas:
1- Não pensar muito sobre o fato de que eu vou morrer. Não teorizar sobre nada e tentar não lembrar que eu tenho mãe. Não pensar se é certo ou errado. Enfim tentar me abster de qualquer sentimentalismo de ultima hora...
2- God doens't exist... então o inferno também não
3- Lembrar que você apenas não quer mais correr o risco de sofrer
4- Estar drogado ou embriagado o suficiente para não se arrepender de última hora, decidir voltar atrás e acordar em um hospital com problemas respiratórios, gente chorando ao seu redor e um psiquiatra querendo conversar com você
5- Foda-se! É a minha vida e eu simplesmente não quero mais que ela seja ruim
6- O mar é um lugar lindo, grandioso
7 Quando estiver bem longe da areia pegar o algodão que está segurando e tapar o nariz e os ouvidos
8- Pode gritar e chorar, mas certifique-se que o local está deserto
9- Estar em local deserto
10- Tentar se divertir enquanto for avançando para a parte mais funda
11- Brincar de boiar, mergulhar e ir cada vez mais para o fundo
12- Não lutar para viver.Simplesmente se entregar...
13- Quando perceber que se arrependeu, lembrar que já está muito longe da praia e é tarde demais
14- Se certificar que vai conseguir morrer dessa maneira.
15- Nada necessariamente nesta mesma ordem
Mas ontem eu percebi que ainda posso viver alguns anos,conquistar algumas coisas, viajar e conhecer outras pessoas até o tal momento do suicídio. Ontem na praia eu procurava as pessoas quando tinha medo de me afogar. Até eu perder completamente este medo vou indo a praia e pesquisando o melhor modo de cumprir a minha vontade. Ainda tenho alguns bons anos para elaborar isso.
O momento estava propício, mas eu preciso ter mais medo de viver do que de me afogar. De repente eu me toquei que o mar vai ter que esperar mais uns bons anos pelo meu corpo. Pois percebi que sou forte e posso muito só também. Perdi o medo de estar junto e também da solidão nesse intenso carnaval.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
O post é enorme, mas é de coração
Eu não sei por quanto tempo vou durar, por isso gostaria muito de deixar ao mundo um filho ou filha, que fossem alguém de valor. Mas eu penso que ter um filho ou filha para que este seja alguém de valor uma coisa extremamente egoísta e futuramente frustrante. Pois, o que é valor? Veja bem, os meus pais e familiares tem essa expectativa de que algum dia eu volte a ser “alguém de valor”, de acordo o que eles acreditam sobre o termo. Eles tinham uma expectativa sobre mim e durante muito tempo eu fui a eles alguém valoroso. Eu não apenas frustrei a expectativa deles, eu os frustrei quando eles pensavam que o trabalho sobre me tornar uma pessoa valorosa tinha acabado. Eu simplesmente, na cabeça deles, dei um salto para trás em todo um processo evolutivo que eles estabeleceram para me ver transformada em uma pessoa valorosa. Então quando parecíamos estar estabelecidos e tudo acabado. Eles olhavam para o protótipo de jovem perfeita que eu me tornei e diziam “ Finalmente conseguimos concluir os nossos experimentos e com sucesso”. Eles não sabiam sobre como eu me sentia a meu próprio respeito e como me sentia incompleta, perdida e em dúvida sobre qual caminho seguir e sobre quem eu era de fato.
Então eu fui mais forte que eu mesma e me venci. A minha vontade de mudar e ser verdadeira era de certa forma maior que a minha vontade de agradar as pessoas. Não é ruim querer agradar quem te ama e cuida de você. O errado é fingir ser outra pessoa para manter esse conforto que o amor proporciona. É tão bom ser querida pelas pessoas que a gente mais ama. Mas eu não consegui ceder até o final... sei lá.
Não sei ainda se perdi ou ganhei alguma coisa com isso. Prefiro acreditar que apenas mudei porque era o coerente a ser feito e que poderia estar bem nos dois modos de vida.
Só sei que eu não fui a filha que esperavam que eu fosse. Isso foi doloroso para mim e para os que criaram expectativas sobre mim também. Não sei se as pessoas disfarçam ou se realmente não sentem tanto as coisas como eu. Mas só sei que minha dor é enorme e a confusão na minha cabeça ainda também é.
Nessas horas eu penso que não é justo ter um filho para realizar um desejo meu porque ele pode, como eu, depois sofrer bastante, mesmo eu tendo escolhido fazê-lo feliz.
Acho essa relação pais e filhos muito complicada e ás vezes exige posturas egoístas de alguma das partes. Por exemplo, o filho sempre querer o apoio e admiração incondicional dos pais, ou os pais tentarem alienar o pensamento dos filhos aos seus ideais. Não que eles estejam necessariamente errados. Se trata de relacionamento humano e sempre vão existir coisas ruins e dificuldades, assim como coisas bonitas e positivas. Mas não me agrada a maneira da maioria das sociedades humanas, que já ouvi falar, tratar desse tema “relacionamento entre pais e filhos”. Parece que as pessoas esquecem que o nascimento de uma criança é também uma categoria simplesmente animal. Sim, o homem e a mulher são animais, como qualquer outro. Ter um filho, nem sempre vai ser um acontecimento recheado de emoção humana e significados. Tecnicamente ter um filho é igualzinho a ter um filhote, se é que me entendem. Se você fica emocionado (a) por isso é apenas porque você é um ser teleológico, ou seja premedita as suas ações, coisa que um cachorrinho não faz. Por isso que a depender do estado da fêmea (cadela) ela pode até comer os próprios filhotes. O cuidado que a cadela e a fêmea humana tem com o seu bebê não é transcendental, mágico, “amor de mãe não tem igual, etc, é meramente instinto biológico . “Mas eu amo meu filho mais do que tudo na vida”, claro como eu disse você sente as emoções, porque acontecem reações químicas no seu cérebro e como alguém que consegue premeditar e direcionar a própria ação, você consegue direcionar a intenção dos seus sentimentos também e optar dar um valor excepcional a isso.
No fim das contas, é bonito ver as mães e o pais amando os filhos. O que eu não gosto é que em muitas sociedades esse amor é superestimado, obrigando pais e filhos assumirem responsabilidades uns com os outros sacrificantes. Eu acredito que é aí que é gerado os conflitos entre pais e filhos. Os pais se sentem obrigados a trabalhar muito, abdicam de sonhos, adquirem cada vez mais despesas, tem que se obrigar a uma tarefa incansável de educar e ás vezes até passam dos limites ao tentar tornar os filhos esse “alguém de valor” que falei no inicio do texto. Por sua vez, os filhos crescem tendo sonhos, expectativas e em um dado momento de transição para a vida adulta podem descobrir que os seus anseios não estavam nos planos dos seus tutores. Alguns dos filhos se impõem quando há repressão, outros se anulam, outros acabam sendo influenciados e mudam seu pensamento sobre suas próprias escolhas.
Eu sei que há exceções e relacionamentos diferentes entre pais e filhos. Mas ouço até dos mais liberais “meu filho não vai fazer isso. Meu filho vai ouvir aquilo”. Isso não é a mesma coisa que pais mais tradicionais fazem? Deve ser muito difícil cuidar de alguém a vida toda e se esvaziar de expectativas sobre ele. Mas eu acredito que se meus pais tivessem tentado eu seria mais feliz e eles também.
Por fim, na nossa sociedade ainda há toda uma mística sobre a mãe, como se ela fosse um ser quase espiritual e devesse suportar tudo, agüentar tudo em nome desse amor incondicional. É uma responsabilidade enorme sobre as mulheres, que eu não quero ter. Acredito que as fêmeas, de todas as espécies, ficam com a parte mais difícil que é carregar o filhote dentro de si, sofrer todas as alterações decorrentes do fenômeno da gravidez e ainda parir. Deveriam nos dar um desconto no que se refere ao cuidado. Infelizmente, até os meus amigos mais liberais não se responsabilizam pela cria. Não basta a mulher sentir toda a mudança do corpo durante a gravidez e depois dela, todo o mal estar e o passar pelo parto, ela ainda tem que cuidar. Pois acreditam que isso é função dela.
Mas isso é assunto para outra conversa. Por enquanto eu gostaria apenas de contar que em visita a uma tribo no ano passado, eu me incomodei com as crianças soltas, correndo e ninguém nunca sabia dizer quem era o pai ou a mãe. Então meu professor me alertou que a tribo tinha em sua matriz cultural a crença de que os filhos que nascem são da tribo. Isso quer dizer que a responsabilidade sobre elas é de todos e não apenas de quem gera. Para eles os pais já cumpriram a sua função que foi de trazer a criança à vida, agora ela precisa ser cuidada por todos. Acho esse um pensamento bem menos egoísta e que talvez gere bem menos conflitos do que esse super amor e altruísmo dos pais na nossa sociedade.
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