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sábado, 21 de abril de 2012

Termino um livro, começo outro ... e eu? Eu só.


Após o impacto de ler um romance em que eu me sentia refletida no caráter de certa personagem durante todo o tempo de leitura, sou obrigada a procurar  companhia pela fala poética de uma desconhecida. Ontem eu lia a ficção de uma francesa rica. Hoje eu leio poesia de uma brasileira, que também não é pobre.Talvez essa coisa de pobreza ou riqueza seja puro  complexo meu,  que sou pobre. Mas muitas vezes me sirvo disso como parâmetro para avaliar de que maneira o meu comportamento se distancia da forma de ser das outras pessoas.
A questão, que pode ser sexista, é que sempre quando conheço a obra literária de alguma mulher, que tem (ou teve) muito mais dinheiro que eu, uso isso como desculpa por elas conseguirem ser brilhantes e eu não.Não sei porque com relação  aos homens nunca faço este tipo de reflexão. Talvez seja porque já estou acostumada a vê-los levar vantagem em quase tudo. Mas não vamos transformar este texto em uma discussão sobre sexismo.
Os textos aos quais me referia no parágrafo acima foram escritos por Simone De Beauvoir e Ana Cristina César. A personagem  com quem me identifiquei é a Anne, do livro 'Les Mandarins'. A Anne também é retratada no livro como uma mulher de classe média alta, que vivia entre intelectuais franceses após a segunda guerra mundial. Mas ainda assim eu identificava o meu pensamento refletido na construção psicológica do seu caráter.
Eu li este romance da Simone, durante quase dois meses, pois o único  tempo livre  que tenho para ler é durante a minha viagem de metrô até o trabalho. Este hiato de tempo, onde estou solitária, cercada (e amassada) por gente é o momento em que na verdade me encontro mais só do que nunca. A viagem de metrô é como um intervalo precioso na convivência com as pessoas que conheço.  (Mas isso só ocorre quando consigo me sentar, é óbvio) Enfim, não teria tempo melhor para se dedicar à leitura. Foi nesse hiato  de tempo que construí minha relação, durante cinco semanas, com Anne, Paule, Henri, Nadine, Dubrehil, etc...
Agora o meu marido me disse "Leia Ana Cristina César" e me entregou essa compilação dos seus poemas. Eu não tive como dizer não. Até o momento não fazia ideia do que poderia ler. Estava abandonada pela Simone e só me restou cair nos braços da Ana Cristina. Era isso ou a solidão, pois não possuía ânimo próprio para ler outra coisa.
Engraçado como os personagens de um romance parecem fantasmas. Eles te acompanham durante um tempo e depois você fecha a capa do livro e simplesmente não estão mais lá.
Agora eu fui apresentada à obra desta pobre menina rica carioca. Longe de mim desmerecer o seu trabalho. Mas por ela estar mais próxima a minha realidade eu me sinto mais a vontade para criticá-la.  É mais fácil ser compreensiva com a fictícia Anne ou com a própria Simone, que estão fora do que é tangível a mim. Pois quando encontro algum ponto de identificação com quem está longe, posso me sentir surpresa, pois não tinha sobre isso expectativa. Porém quanto a obra de uma quase igual (apesar de ser brasileira, ela não é minha contemporânea e pertence a outra classe social) me sinto livre para sentir despeito. Mesmo  essa reflexão mesmo sendo louca e inútil, hão de convir  comigo que é mais fácil criticar aquilo que é conhecido. A Ana Cristina é brasileira, eu sou brasileira (que nunca saiu do próprio país). O que eu posso falar sobre uma francesa?
As poesias da Ana Cristina são para mim um monólogo. Este compilado de seus poemas compõe uma peça teatral, onde ela é a única personagem. Desta maneira eu me sinto jogada para fora de sua obra. É como se ela dissesse o tempo todo "Me escutem, mas não falem comigo". Eu sinto isso com relação a quase todos os poetas que eu já li. Mas com ela esse sentimento veio de forma imediata. Sei também que esse "gelo" que sinto entre eu e as suas palavras são um pouco de desdém. Pois quase sempre tenho inveja de mulheres que conseguem escrever e publicar seus textos. Sexismo de novo? Talvez... Só sei que eu penso que ela é brasileira como eu, mulher como eu e consegue escrever de verdade, mas eu não. Há um certo desdém e inveja mesmo... eu sei. Então uso a desculpa que isso acontece porque ela é rica (o que não deixa de ser uma certa verdade).
Eu sempre estabeleço uma relação muito "real" com aquilo que eu leio. Então sentir-me tão atingida por estas autoras é culpa minha e só minha. Algumas vezes sinto vontade de transar com alguns autores e em outras horas sinto vontade de esbofeteá-los. (Ainda bem que o meu companheiro escreve e posso praticar isso com ele)
A verdade é que não vou deixar de ler as poesias da Ana Cristina por causa dessa impressão inicial.Vou deixar essa mulher fazer suas queixas a mim, enquanto me torno passiva espectadora. Quem sabe assim não me acostumo a apenas ler ou "ouvir"? Porém até me acostumar a essa falta de empatia estarei só neste hiato diário de tempo. Até que eu decida que a menina rica pode existir para além dos jardins do Bennet e pode me acompanhar por além da zona sul. Por enquanto somos apenas duas estranhas. E eu? Eu só.

"Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal
do nascimento a mais da palavra"


Ana Cristina César em Fagulha.





quarta-feira, 14 de março de 2012

Inquietações

Hoje é quatorze de março de dois mil e doze, e estou deitada com "my man" na cama de casal. Eu deveria ter ligado para minha mãe assim que chegasse da faculdade. Eu cheguei às 10 horas e até agora não tive coragem de ligar e sinto pena dela e do meu pai por eu não ter ligado. Mas não consegui ligar. Eles querem que eu case e vão falar várias coisas que eu não concordo, enfim... Ao mesmo tempo eu sei que eles também se sentem magoados pelo meu distanciamento e aí fico com pena. É uma grande chatice esse meu dilema familiar. Já estou cansando de falar sobre ele e aposto que a maioria das pessoas já estão cansadas de ouvir.
Meu dia hoje poderia ser resumido a  ansiedade persistente com relação ao  meus pró-genitores e a uma parvoice cometida por mim hoje na estação do metrô. Eu estava comendo um sanduíche e simplesmente mastiguei um pedaço de papel. Por alguns segundos parei e tencionei tirar o papel da boca. Mas desisti por pura preguiça. Eu precisava era degustar todo aquele sanduíche e uma sublime passividade tomava posse de mim naquele momento. Ainda bem que se tratava apenas de um sanduíche. Pois mesmo se eu caísse na linha do metrô era capaz que não sentisse vontade de levantar-me do chão. Um torpor medonho tomou conta de mim e fui comendo o sanduíche com papel e tomando coca-cola para empurrar intestino a dentro. No fim achei o papel agradável para comer e me levantei para entrar no metrô. Quando virei  meu rosto para a esquerda olhando se tinha deixado alguma coisa no banco uma senhora me encarava com temor e ela tinha um olhar de medo. Esse estranhamento dela com relação a minha pessoa me tirou desse estado de sensibilidade reduzida. Então eu fiquei olhando para ela, até que ela se levantou do banco. Imediatamente a minha vontade de brigar, comer e transar voltou. Acordei!



" - Pam, cadê a história, o desfecho? Nada que disse faz sentido.
   - A história já está contada. Não tem desfecho, nem remate. É só isso."

Fora o dilema com os meus pais, essa espécie de apatia que ás vezes me acomete em momentos (pequenos ou importantes) em que preciso reagir, eu fiz sexo hoje e foi bom.Só queria morder mais "my man" e bater nele na hora de trepar. Ele disse que tudo bem, mas tenho certeza que não sabe o que está falando. Deixo apenas pequenas mordidas pela corpo dele, por enquanto.

"-Pam, esse post não tem nenhum sentido.
 - Eu sei disso."

 
 
 Desenhos de Roland Torpor ilustram esse post